Cátedra Celso Furtado

Debates sobre neoindustrialização e desenvolvimento pautam edição especial da revista Cadernos de Economia e Política

Publicação acadêmica da FESPSP reúne 15 textos sobre ciclo de seminários organizado pelo Núcleo Brasil de Estudos Estratégicos e busca contribuir para o debate sobre projeto de desenvolvimento nacional

A revista acadêmica Cadernos de Economia e Política, produzida pela Cátedra Celso Furtado, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), lança nesta quarta-feira (23/9) a edição especial “Neoindustrialização, Estado e Desenvolvimento”. Produzida em parceria com o Núcleo Brasil de Estudos Estratégicos (NBEE) da Fundação, a publicação reúne 15 textos que sintetizam as exposições dos participantes de quatro encontros do Ciclo de Seminários sobre Neoindustrialização e Política Industrial. A edição inclui ainda uma síntese das conclusões dos debates e uma análise estratégica da política industrial brasileira. 

Realizados entre agosto de 2025 e março de 2026, com apoio do Corecon-SP e da ABED-SP, os seminários discutiram as condições necessárias para a transformação produtiva brasileira diante da reorganização da economia internacional, da crise climática global, da dependência tecnológica e da perda de densidade industrial.

Editor-executivo da revista científica e pesquisador da Cátedra Celso Furtado, o historiador Fernando Garcia de Faria afirma que a edição especial da publicação nasceu da convergência entre as duas iniciativas da FESPSP.

“A discussão sobre desenvolvimento nacional, que orienta as atividades da Cátedra, também atravessa o trabalho feito pelo NBEE. Trata-se de uma edição que passa por uma discussão generalizada com relação à ideia de industrialização”, diz Faria.

Para o pesquisador, a publicação amplia a circulação dessas reflexões e contribui para qualificar o debate público sobre os caminhos do país em um ano eleitoral de extrema importância. “Sabemos que esse nosso esforço representa um tijolinho em uma imensa muralha, mas o nosso trabalho tem a pretensão de elevar e qualificar o debate político programático”, reforça.

A organização do ciclo foi liderada pelo doutor em Economia Antonio Prado, coordenador do Eixo Política Industrial do NBEE e membro do Conselho Superior da FESPSP. Segundo o economista, o conteúdo apresentado nesta edição da revista reúne discussões sobre o papel da indústria no desenvolvimento brasileiro, as condições de financiamento da transformação produtiva, as missões da Nova Indústria Brasil (NIB) e as experiências internacionais em políticas industriais, com destaque para a China

“A ideia geral foi, primeiro, fazer um debate que vinculasse o tema do desenvolvimento e da política industrial a uma análise mais geral sobre o fenômeno da desindustrialização precoce no Brasil”, avalia Prado, que também é vice-presidente do Corecon-SP e coordenador da Abed em São Paulo.

O conselheiro da Fundação acrescenta que a proposta das reuniões foi relacionar a política industrial a um projeto mais amplo de desenvolvimento econômico e social. “Nosso trabalho não foi apenas o de pensar na política industrial isoladamente, mas também articular essa ideia dentro de um plano de desenvolvimento econômico e social para o Brasil”, conta.

Na avaliação de Prado, a revista dá continuidade a esse propósito ao reunir contribuições de pesquisadores, representantes do poder público, dirigentes sindicais e especialistas em financiamento e atividade industrial.

Dos seminários às páginas da revista

O percurso trilhado pelos Seminários teve início com o debate sobre industrialização e política industrial no Brasil, realizado em agosto de 2025. Na sequência, as palestras abordaram o financiamento da transformação produtiva, tema do encontro de outubro, e prosseguiu com a discussão sobre as missões e os impactos socioeconômicos da Nova Indústria Brasil, ocorrida em novembro. O último seminário, em março de 2026, examinou experiências internacionais, com destaque para a China e as lições para o caso brasileiro.

Ao fazer um balanço dos encontros, Prado identifica uma preocupação recorrente: a necessidade de compatibilizar a política industrial com as condições macroeconômicas do país. Na avaliação dele, juros elevados, restrições fiscais e instabilidade cambial dificultam a realização de investimentos capazes de transformar a estrutura produtiva.

O economista defende o fortalecimento da capacidade de financiamento do BNDES e uma articulação mais estreita entre política industrial e infraestrutura. Ele acredita que ampliar a produção e disputar mercados internacionais exige enfrentar também os custos de transporte e as limitações logísticas.

Faria, por sua vez, afirma que situar esses debates no tempo é parte importante do trabalho do time editorial da revista. Como historiador, ele ressalta que o contexto em que as exposições foram realizadas ajuda a compreender seus sentidos e sua relação com os problemas daquele momento.

A publicação aproxima perspectivas de pesquisadores e profissionais vinculados a universidades, bancos de desenvolvimento, órgãos governamentais e entidades sindicais. Para Faria, essa diversidade contribui para uma abordagem da indústria que considera a capacidade de produção, as pessoas que trabalham e as condições em que a atividade produtiva se realiza.

A presença de representantes dos trabalhadores, observa Faria, permite incorporar à discussão os direitos sociais e trabalhistas, ao lado do financiamento, da tecnologia e das estratégias empresariais.

O historiador destaca que a edição especial inclui quadros sobre estratégias de desenvolvimento elaborados pelo professor Prado exclusivamente para a ocasião. Esse material analítico sistematiza problemas e estratégias em diferentes áreas, acrescentando uma contribuição própria ao conjunto dos debates.

“Os textos resultam da transcrição, edição e síntese dessas exposições, com extensão semelhante e foco nas principais questões apresentadas pelos palestrantes”, declara o pesquisador. “Cada um desses textos tem mais ou menos o mesmo tamanho.”

Prado ressalta que a experiência chinesa, discutida no último encontro, oferece uma reflexão relevante: incorporar tecnologias estrangeiras não basta.

“É necessário construir conhecimentos e capacidades locais de pesquisa, engenharia e inovação que permitam desenvolver e superar as tecnologias inicialmente absorvidas”, argumenta o conselheiro.

Todos os debates do Ciclo de Seminários foram transmitidos via web e os vídeos com a íntegra dos encontros, além de 20 cortes com os principais temas debatidos, podem ser consultados gratuitamente no repositório digital da FESPSP, que também passa a abrigar a nova publicação.  Acesse o acervo do Ciclo de Seminários sobre Neoindustrialização e Política Industrial. 

A trajetória do projeto e as atividades realizadas pelo NBEE também estão reunidas em reportagem publicada anteriormente no portal da Fundação. Leia a reportagem sobre a nova fase do NBEE. 

“Desejamos que a circulação desse conteúdo alcance tanto o ambiente acadêmico quanto os profissionais e representantes de instituições governamentais envolvidas na formulação de políticas públicas”, resume Prado.

Próximos passos do projeto

Encerrada a série realizada na FESPSP, Prado diz ter iniciado um novo ciclo de seminários. Desta vez, apresentando experiências internacionais bem-sucedidas de desenvolvimento econômico e industrial aplicadas por países europeus.

O economista destaca que o projeto, encabeçado pela Comissão de Relações Internacionais do Corecon-SP com apoio do NBEE e a Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED-SP), já teve início.

A primeira iniciativa foi promover um debate com representantes do governo da Noruega, ocorrido em 29 de junho de 2026, que abordou como o país escandinavo transformou recursos naturais em um modelo de desenvolvimento e estabilidade macroeconômica. O vídeo da palestra completa pode ser assistido através do canal TV Economista do YouTube.

Prado antecipa que a intenção é replicar a fórmula com iniciativas semelhantes que abordem Finlândia, Dinamarca e Holanda ao longo dos próximos meses.

Estudos sobre o desenvolvimento do Brasil

Criada em 2005 pela FESPSP, a Cátedra Celso Furtado é um núcleo de estudo, formação e reflexão dedicada ao desenvolvimento nacional e latino-americano, articulando o diálogo entre economia, política e sociedade, inspirado nas ideias de um dos maiores intelectuais brasileiros do século XX.

O economista paraibano Celso Furtado dizia que o subdesenvolvimento não é natural e sim uma condição historicamente e socialmente determinada. Para ele, a condição de subdesenvolvido não era uma pré-condição temporária para um país atingir o desenvolvimento econômico.

“Isso porque o subdesenvolvimento não é uma etapa do desenvolvimento. Os países subdesenvolvidos podem chegar a um certo nível de desenvolvimento, mas estão condicionados pelo peso de suas condições históricas e pelas políticas econômicas e sociais implementadas para superação do subdesenvolvimento”, argumenta Faria.

 


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