Fatores como a “desidratação” antecipada de candidaturas menores — que parece ter alcançado seu teto máximo de transferência de votos —, a abstenção e as influências familiares vão dar o tom do avanço para o segundo turno
A dois dias do 1º turno da eleição presidencial, analistas políticos do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Labop/FESPSP) projetam um cenário de empate técnico, situação que levaria a definição da disputa ao Palácio do Planalto para o 2º turno.
Com base na estabilidade histórica da série Datafolha — que nesta quinta-feira (1/10) apontou 42% dos votos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e 38% para o senador Flávio Bolsonaro (PL) no cenário estimulado, com uma diferença estabilizada em 4% —, os pesquisadores Beto Vasques, Hilton Fernandes e Jairo Pimentel avaliam que a acentuada desidratação dos candidatos menores alimentou um forte movimento de “voto estratégico” (ou voto útil) concentrado nos dois líderes da disputa. Isso torna o avanço para o 2º turno o desfecho mais provável, embora pequenas oscilações demográficas de última hora possam surpreender. Confira o vídeo com a íntegra das análises dos especialistas da FESPSP no canal da Fundação no YouTube.
A consolidação da disputa mostra uma eleição profundamente cristalizada na dinâmica da rejeição mútua, na qual Lula e Flávio Bolsonaro aparecem empatados numericamente com 45% de rejeição cada um. De acordo com Beto Vasques, coordenador do Labop, o comportamento do eleitorado se assemelha muito mais a uma prorrogação do pleito anterior do que a uma corrida presidencial tradicional.
“Nós estamos diante de um terceiro turno de 2022. Nós não estamos com uma eleição de primeiro turno clássica desde o começo do ano. Desde o começo do ano, os dois primeiros candidatos já têm a maioria dos votos”, analisa Vasques, indicando um tênue favoritismo numérico ao presidente, que oscilou para 48% contra 45% do senador em cenário simulado de 2º turno, mantendo o quadro de empate técnico rigoroso.
Pesquisa espontânea
A rápida redução dos eleitores indefinidos na intenção de voto espontânea — que despencaram de 44% em março para apenas 13% na rodada desta quinta-feira (uma queda de 31 pontos percentuais) — não se traduziu em vantagem isolada para nenhuma das duas principais forças. No levantamento espontâneo, Lula cresceu de 25% para 39% (alta de 14 pontos), enquanto a soma de Jair e Flávio Bolsonaro saltou de 15% para 35% (alta de 20 pontos).
Ao contrário da pesquisa estimulada, quando é apresentada aos entrevistados uma lista contendo todos os nomes dos candidatos, a espontânea é um levantamento de opinião em que o entrevistador não apresenta uma lista com os nomes dos concorrentes. Por isso, alguns eleitores citam Jair Bolsonaro, que segue inelegível até 2030 por determinação da Justiça Eleitoral.
Jairo Pimentel, cientista político do Labop, destaca que o sprint final esvaziou candidaturas alternativas de centro-direita e direita, distribuindo os apoios de forma homogênea entre a liderança. O pesquisador cita o exemplo de Augusto Cury, que chegou a pontuar 8% e desidratou para 4%, além de quedas de candidatos como Ronaldo Caiado (de 4% para 3%) e Renan.
Pimentel adverte, contudo, que o equilíbrio captado nas sondagens eleitorais esconde um cenário real ainda mais acirrado. “Acredito que o cenário é muito mais apertado do que realmente a pesquisa está mostrando. Minha previsão é de que o empate vai ser algo real nesse primeiro turno, numa diferença de milhares de votos, talvez, ou poucos milhões de votos”, opinou o especialista.
Decisões de última hora e abstenções
O cientista político Hilton Fernandes explica que fatores extraestatísticos de última hora ganham peso decisivo nesse ambiente altamente polarizado entre os candidatos, refletido até mesmo nos índices de avaliação de governo do Datafolha, que apontam 49% de desapreciação e 48% de aprovação para a gestão atual.
“Esse sentimento de que não dá mais para o meu candidato ganhar pode criar uma certa ansiedade no eleitor e levar a uma mudança maior ainda. Temos também o efeito de grupos sociais que costuma acontecer nos finais de semana de eleição, especialmente os religiosos e familiares, que influenciam a decisão no último momento e que a pesquisa não pega”, explica Fernandes.
O desfecho do fim de semana dependerá crucialmente de duas variáveis silenciosas: o comportamento dos “eleitores pendulares” (aqueles que flutuam entre o voto e a abstenção por desejarem mudança, mas temerem o risco) e o perfil demográfico, geográfico e motivacional da abstenção, dizem os especialistas da FESPSP.
Fatores como o desconhecimento do número nas urnas por parte dos eleitores de candidatos nanicos — onde apenas 15% dos eleitores de Caiado, por exemplo, sabem o seu dígito correto — podem inflar artificialmente os votos válidos dos líderes por meio de votos nulos acidentais, já que Lula e Flávio são os únicos que superam os 80% de conhecimento do número.
O perfil das abstenções também deve pesar nesse cenário. A menor abstenção feminina historicamente favorece a candidatura de Lula — segmento no qual o presidente abre 10 pontos percentuais de vantagem sobre o adversário —, enquanto a maior abstenção tradicional entre idosos (acima de 60 anos) e populações de menor renda e escolaridade afeta negativamente seu desempenho nas urnas, tensionando a corda do equilíbrio entre o incumbente e o senador até o último minuto de apuração.
A pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (1/10) entrevistou 2.506 pessoas presencialmente, com idade de 16 anos ou mais, em 152 municípios do país, entre os dias 29 de setembro e 1º de outubro de 2026. Contratada pela Globo e pelo jornal Folha de S.Paulo, a sondagem eleitoral tem margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, nível de confiança de 95% e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-08039/2026.

