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Carlos Nobre defende soluções baseadas na natureza para restaurar a Amazônia e enfrentar a crise climática em aula magna na FESPSP

Em auditório lotado, climatologista defende a restauração em larga escala de áreas degradadas da Amazônia, o combate ao desmatamento e a integração entre ciência, tecnologia e saberes indígenas e tradicionais

Mais de 160 pessoas lotaram o auditório da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), na última quarta-feira (26/8), para acompanhar a aula magna do cientista Carlos Nobre “Amazônia: recuperar e preservar a floresta e o clima”. Referência internacional em climatologia, ele defendeu soluções baseadas na natureza para recuperar a floresta e enfrentar a emergência climática global.

Transformar áreas devastadas da Amazônia em grandes frentes de recuperação florestal, desenvolver uma economia sustentada pela biodiversidade e levar ciência e tecnologia para perto das comunidades amazônicas estão entre os caminhos apresentados pelo Professor Doutor, que é copresidente do Painel Científico para a Amazônia. Assista a íntegra da aula de Carlos Nobre no canal da FESPSP no YouTube.

A palestra foi mediada pelo presidente do Conselho Superior da FESPSP, Ubiratan de Paula Santos, um dos articuladores da visita do cientista. “É uma honra contar com a presença do professor Carlos Nobre, além de ser um dos climatologistas mais importantes do país e ser reconhecido globalmente, não é uma pessoa que estuda apenas o diagnóstico. Nobre busca soluções para os problemas encontrados. Ele é o que eu chamo de um médico do ambiente e, portanto, médico da saúde das pessoas”, declarou Santos. 

Rios voadores e equilíbrio climático 

O professor iniciou a aula explicando que a importância da restauração está relacionada à própria dinâmica climática da Amazônia. Também detalhou como a floresta tropical desenvolveu, ao longo de milhões de anos, um sistema extremamente eficiente de reciclagem de água e nutrientes.

Segundo o climatologista, cerca de 40% da chuva que cai sobre o bioma depende da reciclagem da própria umidade realizada pela vegetação.

“Parte desse vapor de água é transportada para outras regiões pelos chamados ‘rios voadores’, que são essenciais para regular o regime de chuvas no Cerrado, no Pantanal, na Mata Atlântica e em áreas do Sul e do Sudeste brasileiro”, explicou Nobre.

A retirada da floresta interfere nesse funcionamento, alertou. “Pastagens e áreas agrícolas possuem raízes menos profundas e reciclam menos água, enquanto o aumento da temperatura e o prolongamento da estação seca dificultam a manutenção das condições necessárias para uma floresta tropical úmida.”

Restauração para afastar o ponto de não retorno 

Foi a partir de estudos científicos sobre esse processo que Nobre passou a investigar, ainda no início da década de 1990, o risco de “savanização” de partes da Amazônia. Décadas de pesquisas posteriores indicaram que o problema resulta da interação entre diferentes pressões.

Ao longo da aula, ele apresentou os riscos provocados pelo avanço simultâneo dos extremos climáticos, do desmatamento e da degradação ambiental. “O ponto de não retorno da Amazônia é a interação sinérgica do desmatamento e do aquecimento global. Não é só o aquecimento global”, afirmou. “Ponto de não retorno” é a expressão utilizada pelos cientistas para definir o limite crítico a partir do qual um sistema natural sofre mudanças irreversíveis, desencadeando transformações que passam a se sustentar por mecanismos próprios. Além de perder a capacidade de se autorregenerar, um ecossistema nessa condição pode entrar em um processo de degradação progressiva, capaz de provocar uma redução drástica ou até mesmo seu desaparecimento completo.

Aos 75 anos de idade e mais de meio século de atuação profissional, Carlos Nobre segue produzindo ciência de alto impacto no Brasil. É catedrático do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP) e lidera diversas iniciativas relacionadas à recuperação do bioma amazônico e à sociobioeconomia em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). 

Foi também um dos autores do Quarto Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas (ONU). Em 2007, o IPCC dividiu com o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore o Prêmio Nobel da Paz. 

Na USP, Nobre participa ainda de estudos relacionados à “Esponja Verde Urbana na Região Metropolitana de São Paulo”, que investigam a importância da regeneração da vegetação na capital paulista para melhorar as condições climáticas na capital e nos municípios da região metropolitana. 

Em março último, ele foi nomeado pelo papa Leão XIV membro do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, tornando-se conselheiro do Vaticano sobre a crise climática. 

Dos arcos do desmatamento aos arcos da restauração 

Uma das principais propostas defendidas por Nobre é transformar áreas historicamente associadas ao chamado “arco do desmatamento” em grandes corredores de recuperação ecológica. Esses “arcos da restauração” foram apresentados pelo Painel Científico para a Amazônia durante a COP27, realizada no Egito, em 2022.  

A proposta pretende inverter o processo que marcou a ocupação de grandes extensões sobretudo do sul da floresta. “Regiões caracterizadas pela derrubada e degradação da vegetação passariam a concentrar iniciativas de recuperação florestal em escala compatível com a dimensão do problema”, explicou Nobre.

A iniciativa considera a restauração de pelo menos 500 mil quilômetros quadrados. De acordo com cálculos mencionados durante a aula, uma recuperação florestal dessa magnitude poderia retirar cerca de 600 milhões de toneladas de gás carbônico da atmosfera por ano.

O benefício não se restringiria à captura de carbono. Recuperar a vegetação ajudaria também a fortalecer a reciclagem da água e a conter o prolongamento da estação seca, dois elementos fundamentais para afastar a Amazônia do ponto de não retorno.

“Floresta em pé e rios fluindo”

Na concepção de Nobre, a sociobioeconomia contrapõe-se ao modelo atual em que a Amazônia permanece prioritariamente como fornecedora de matérias-primas e commodities, enquanto grande parte do processamento, da tecnologia e do valor agregado fica distante dos territórios onde se encontra a biodiversidade.

Para o cientista, o Brasil precisa ir além do papel de fornecedor de commodities. Uma das alternativas seria criar uma economia capaz de transformar a biodiversidade amazônica em conhecimento, tecnologia, produtos industrializados, renda e oportunidades para as populações locais, sem depender da derrubada da vegetação.

“Precisamos criar uma socioeconomia de saudáveis florestas em pé e rios fluindo”, sintetizou.

O climatologista acrescentou que o conhecimento científico e tecnológico contemporâneo deve se combinar com os saberes acumulados durante milhares de anos pelos povos indígenas e pelas comunidades tradicionais da Amazônia.

Segundo Nobre, os povos indígenas na região desenvolveram ao longo de sua história conhecimentos relacionados a milhares de produtos da biodiversidade. “Isso é ciência indígena.”

A aula magna foi o nono encontro promovido pelo Ciclo de Seminários Desafios para Outro Brasil, realizado pela FESPSP em parceria com o site Outras Palavras. A programação reúne especialistas de diferentes áreas para debater questões estratégicas relacionadas ao desenvolvimento político, econômico e socioambiental do Brasil. Os encontros são gratuitos e abertos ao público. 

Tecnologia floresta adentro

A sociobioeconomia defendida por Carlos Nobre busca inverter a lógica vigente ao levar ciência, tecnologia e capacidade de processamento para perto dos locais onde a biodiversidade é produzida e preservada. 

Uma das experiências que procura colocar esse princípio em prática é o projeto Amazônia 4.0, liderado pelo cientista e por seu irmão caçula, o biólogo Ismael Nobre.

O projeto aposta na aplicação de tecnologias contemporâneas às cadeias produtivas da biodiversidade, com o objetivo de agregar valor aos produtos amazônicos sem recorrer à substituição da floresta por atividades extensivas.

Durante a aula, Nobre citou a criação de um Laboratório Criativo da Amazônia voltado ao cacau e ao cupuaçu. A estrutura foi desenvolvida para capacitar comunidades e testar formas de processamento local capazes de transformar essas matérias-primas em produtos de maior valor, como chocolate de cacau amazônico e cupulate, chocolate produzido a partir do cupuaçu. 

O horizonte proposto pelo climatologista não se limita a impedir a perda da cobertura florestal. Para o cientista, é imperativo transformar a preservação e a recuperação da floresta em fundamentos de um novo modelo de desenvolvimento.

“Vamos salvar a Amazônia, vamos salvar todos os povos brasileiros, porque isso é o que nós todos queremos”, concluiu.


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