Desidratação de candidatos nanicos e abstenção seletiva de perfis demográficos surgem como os fatores decisivos na reta final da eleição presidencial de 2026
Embora a pesquisa eleitoral Quaest mais recente, divulgada na segunda-feira (21/9), indique a realização de 2º turno como cenário provável para a eleição presidencial no Brasil, cientistas políticos do Laboratório de Opinião Pública e Mídias Digitais (Labop) da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) não descartam a possibilidade de a corrida ao Palácio do Planalto ser decidida já em 4 de outubro, data para a realização do 1º turno.
De acordo com especialistas da Fundação, essa hipótese depende da continuidade da concentração das intenções de voto no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e no senador Flávio Bolsonaro (PL), além do perfil dos eleitores que comparecerem às urnas. A redução do espaço das candidaturas menores e o comportamento do eleitor pendular também entram na avaliação.
Beto Vasques, coordenador do Labop FESPSP, observa que a comparação entre rodadas da pesquisa espontânea mostra maior concentração das respostas das principais candidaturas. Nessa modalidade, o eleitor entrevistado informa a sua intenção de voto sem receber uma lista com os nomes dos candidatos.
Segundo com o analista político, mais de 90% da redução das respostas indecisas correspondeu a eleitores que migraram para as candidaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), acelerando um processo de antecipação radical da dinâmica de voto útil na reta final da disputa eleitoral. A disputa se converteu em um acirrado embate de rejeições, empatadas em patamares elevados nas pesquisas.
Para Vasques, a concentração da disputa, em um contexto de elevada rejeição aos dois candidatos, favorece escolhas estratégicas na reta final. “Altas rejeições, combinadas com alto grau de conhecimento dos candidatos, incentivam o que conhecemos como ‘voto útil, racional, estratégico’ ou ‘voto no menos pior’”, analisa Vasques.
Dinâmica de absorção de votos
O especialista acrescenta que a chance de vitória em 1º turno deixa de ser apenas teórica se a desidratação das siglas menores se aprofundar. “Se a desidratação dos candidatos nanicos se intensificar, a depender do perfil da abstenção, poderíamos, eventualmente, ver um dos candidatos ultrapassar os 50% dos votos válidos e liquidar a fatura em 4 de outubro próximo. Ainda não é o cenário mais provável, mas é cada vez menos descartável”, diz o coordenador do Labop FESPSP.
O crescimento recente de Flávio nas pesquisas de intenção de votos (de 29% para 33%) encontra explicação nessa dinâmica de absorção. Segundo a nova sondagem eleitoral da Quaest, grande parte desse avanço decorre da perda de espaço de candidaturas menores de direita, como a de Cury, que encolheu de 10% para 6% no eleitorado geral.
Na análise do cientista político Hilton Fernandes, também pesquisador do Labop FESPSP, o comportamento das subamostras demográficas apontadas na última Quaest, considerando-se as margens de erro, confirma a estabilidade na maioria dos segmentos, mas com variações relevantes em outros.
Nos 20 dias em que foram feitas as quatro rodadas de pesquisa, Lula se manteve estável no eleitorado feminino, mas veio perdendo espaço no Nordeste (de 62% para 57%) e entre quem tem nível superior de escolaridade (de 40% para 33%). No mesmo período, Flávio registrou um avanço real e fora da margem de erro no segmento evangélico, subindo de 53% para 58% das intenções de voto, e entre eleitores com nível superior, passando de 44% para 52%.
Os interessados podem assistir ao vídeo com a íntegra da análise feita pelos cientistas políticos Beto Vasques e Hilton Fernandes, pesquisadores do Labop, disponível no perfil da FESPSP no YouTube.
Abstenções e votos válidos
O fator determinante para confirmar se a eleição se encerrará no primeiro turno pode ser o nível de comparecimento e de votos válidos no dia da votação. Os analistas da Fundação apontam que o perfil histórico da abstenção no Brasil tende a prejudicar proporcionalmente mais a base tradicional de Lula — composta majoritariamente por eleitores de menor escolaridade e idosos —, o que tem levado os institutos de pesquisa a adotarem critérios mais rígidos de ponderação para evitar distorções nos resultados projetados.
Contudo, os homens, segmento no qual Flávio mantém vantagem na intenção de voto, costumam comparecer menos às urnas do que as mulheres. “E o presidente Lula leva vantagem entre as mulheres, o que, nesse caso, seria uma boa notícia para ele, tornando ainda mais difícil conseguir estimar a quem a abstenção será mais favorável”, diz Vasques.
A pesquisa Quaest ouviu 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, entre os dias 17 e 20 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro da pesquisa é BR-06004/2026.

